domingo, 22 de junho de 2008

The Corporation - report

Em suas críticas a Marx, Weber diz que o grande impacto do capitalismo na sociedade moderna não se caracterizaria na possibilidade de colapso dos meios de produção causado pela exploração -- mas sim a tendência constante à racionalização: racionalização do trabalho, das relações pessoais, da moral, dos valores, da política e até da própria arte, através da criação da "indústria cultural" sobre a qual discorreram Adorno e Horkheimer.Ao lado da racionalização de de que fala Weber (e também fruto dela), outra grande característica da modernidade é a burocratização. Hannah Arendt fala da burocraia como a mais perversa das formas de organização do poder. Ela é pior que a mais injusta das monasquias, a mais dispótica das tiranias, a mais opressora das ditaduras, porque tem por principal característica ser "o governo de ninguém".
O fenômeno da burocratização no século passado implicou a formação de hipertróficas estruturas de poder, instituições agigantadas que consistiam, basicamente, na hierarquização, na massificação e homogeneização das pessoas, na alienação, na própria impossibilitação de se compreender ou perceber a totalidade de sua estrutura. Baseados na burocracia surgiram os regimes totalitários (o nazismo, o fascismo, o stalinismo, etc), mas é um erro reducionista enxergar apenas suas manifestações no campo da política.
A corporação é o arquétipo da burocratização provocada pela racionalização, é construída justamente em cima da esfera pública (no sentido arendtiano), das relações entre as pessoas, dos valores compartilhados, da pluralidade entre os homens, da identidade do indivíduo e seu auto-reconhecimento como capaz de ação, passando então a ver-se como reflexo de seu trabalho e de seu consumo (todos esses temas recorrentes em Hannah Arendt).
O fato de a corporação ter-se constituído como pessoa jurídica só comprova sua identificação com a burocracia. Isso significa que a identidade abstrata, o sistema invisível de mecanismos de poder, goza dos mesmos direitos de um indivíduo, de um cidadão. Mas, ao contrário deste, a corporação não tem moral, não tem valores ou qualquer espécie de conteúdo ético que a guie. Ela é completamente vazia nesse aspecto -- e tal vazio pode ser preenchido por qualquer valor, ainda que isso não valha, absolutamente, para as pessoas que a compõem: eis a grande perversidade dessas instituições.
Tendo adquirido, juridicamente, o status de pessoa, isto é, uma personalidade legal artificial, a corporação se esforça, então, no sentido de construir uma imagem de si ante a sociedade. Isso é feito, atualmente, em grande parte pela publicidade. Ela é uma das mais sinceras expressões dos anseios e necessidades de uma comunidade. Primeiro, porque é, diga-se assim, a manifestação da cultura no seio da economia. Segundo, porque sua principal tarefa é preencher o vazio, a ausência e a falta inerentes à artificialidade com um valor. E isso é realizado de forma inteligível e fácil, para que pessoas possam identificar-se com o produto, com a empresa, com o serviço e, assim, dispor-se a comprá-lo.
A relação de identificação entre o consumidor e essa entidade artificial é bastante sutil, posto que é difícil ponderar até que ponto a entidade se esforça para adequar sua imagem ao que é almejado e valorizado pela esfera social; ou até que ponto o indivíduo perdido no vazio provocado pela destruição dessa esfera social, dos valores ocmpartilhados, busca apra si a atribuição de determinada idéia trnasmitida pela instituição.
Se se vive numa época de crise -- econômica, política, social, cultural -- em que as pessoas perdem a referência de seu papel social, diminui-se a importância das relações interpessoais, não há "consciência do outro" -- que, segundo Arendt, significa a destruição da esfera pública-- a balança pesa para o segundo lado. As pessoas, então, recorrem a um produto para satisfazer sua necessidade de referencial, o que leva a corporação a vender não objetos ou serviços em si, mas a idéia contruída e sustentada por trás do item de consumo.
No Brasil, veja-se o exemplo da propaganda mais recente, que passou por uma mudança radical em seu discurso a partir da década de 80, num contexto socioeconômico de franca ascensão do neoliberalismo. O que se encontra, a partir de então, são as corporações criando e vendendo estilo e qualidade de vida, responsabilidade social e preservação da natureza.
Tais idéias, por mais que sejam antagônicas às estruturas reais de poder e exploração sobre as quais se fundam a corporação, representam os anseios do sujeito típico do século XXI. É uma época de declarada crise nos mais diversos campos da sociedade, em que o homem parece querer lavar-se de sua parcela de responsabilidade na crise através do consumo.
Ele quer incorporar à sua identidade a idéia de "desenvolvimento sustentável" da Petrobrás, embora a Amazônia esteja literalmente em chamas; a "saúde" e a "qualidade de vida" vendidas pelo McDonald's, embora o própro homem se esgote em escritórios e empregos mal-pagos; a "responsabilidade social" defendida pela Vale do Rio Doce, embora as periferias e as minoriasse encontrem cada vez mais marginalizadas; o "estilo de vida" do Leblon, de Ipanema ou de Copacabana mostrado à exaustão nas novelas da Rede Globo, embora o indivíduo lide cotidianamente, nas grandes cidades, com o caos que são o sistema de saúde e os transportes públicos. Enfim, num processo típico da sociedade do consumo, o homem recorre à corporação para que ela o diga quem ele é, o que ele quer e como ele deve ser. As corporações, no fi nal das contas, transmitem uma idéia de que "está tudo bem", quando a realidade grita a obviedade do contrário.
Caímos, então, num ciclo de alienação que só dificulta -- embora não impossibilite totalmente-- uma mobilização social no sentido de modificar a realidade em crise, posto que destruiu-se, na modernidade, a condição que nos fazia essencialmente humanos e dotados de ação: a capacidade de enxergarmos o próximo e, muito além disso, identificarmo-nos nele.

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